O passe é uma das práticas mais conhecidas nas instituições espíritas. Muitas pessoas procuram esse recurso em momentos de dificuldade, cansaço, preocupação ou necessidade de fortalecimento espiritual.
Apesar de sua popularidade, ainda existem muitas dúvidas sobre o que realmente acontece durante um passe.
Seria uma espécie de ritual? Existe algum poder especial nas mãos do passista? O passe cura doenças? É necessário possuir algum objeto ou fazer algum procedimento específico?
A compreensão espírita é diferente dessas interpretações.
O passe é entendido como um recurso de auxílio espiritual, relacionado à transmissão e à combinação de fluidos, à ação dos espíritos e às condições íntimas daquele que recebe o auxílio.
Sua finalidade não é substituir tratamentos médicos ou psicológicos, nem produzir fenômenos extraordinários.
O passe busca contribuir para o equilíbrio e o fortalecimento do indivíduo, dentro de uma perspectiva de fé, confiança, fraternidade e renovação interior.
O que é o passe espírita?
De maneira simples, podemos compreender o passe como uma forma de auxílio em que o passista, contando com a assistência espiritual, participa de uma ação voltada ao equilíbrio daquele que recebe.
Na visão espírita, os seres humanos estão envolvidos por fluidos e energias que podem sofrer alterações de acordo com nossas condições físicas, emocionais e espirituais.
O passe procura favorecer uma condição mais equilibrada, contribuindo para o bem-estar e para o fortalecimento daquele que o recebe.
É importante compreender que o passe não deve ser visto como um procedimento mágico.
Não depende de fórmulas secretas, objetos especiais ou gestos realizados de maneira supersticiosa.
Seu fundamento está na ação do bem, na fé, na sintonia e na disposição para receber o auxílio.
Fluidos e energias na visão espírita
Para compreender o passe dentro da perspectiva espírita, é necessário conhecer, ainda que de maneira simples, a ideia de fluidos.
Allan Kardec aborda, em suas obras, a existência e as características do chamado fluido universal, relacionado à constituição e às manifestações da vida espiritual e material.
Na prática do passe, a literatura espírita considera a possibilidade de transmissão e combinação de fluidos, envolvendo o passista, o beneficiado e a assistência espiritual.
Podemos compreender essa ideia sem recorrer a interpretações místicas.
Assim como nosso estado emocional pode influenciar nosso comportamento e até nossa percepção física, a visão espírita considera que nossos pensamentos e sentimentos também possuem repercussões no campo espiritual.
Por isso, o equilíbrio interior é tão importante.
O passe não deve ser encarado como uma “energia mágica” que alguém simplesmente coloca sobre outra pessoa.
É um processo de auxílio que envolve diferentes fatores e que deve ser compreendido com serenidade e responsabilidade.
A importância da fé e da sintonia
A disposição interior de quem recebe o passe também possui importância.
A fé, dentro da perspectiva espírita, não significa acreditar cegamente.
Ela pode ser compreendida como confiança, esperança e disposição para buscar o bem.
Uma pessoa que procura o passe com serenidade, confiança e desejo sincero de melhorar pode aproveitar melhor aquele momento de recolhimento.
A sintonia também merece atenção.
Pensamentos e sentimentos influenciam nossa maneira de perceber e vivenciar as experiências.
Por isso, o momento do passe pode ser acompanhado por uma atitude de concentração, silêncio interior e confiança.
Não é necessário esperar sensações extraordinárias.
Algumas pessoas podem sentir tranquilidade.
Outras podem experimentar emoção.
Algumas podem não perceber nada de diferente.
Todas essas experiências são possíveis e não devem ser utilizadas como medida para determinar se o passe “funcionou” ou não.
O papel do passista
O passista ocupa uma posição importante nesse processo, mas não deve ser visto como alguém dotado de poderes especiais.
Ele é, antes de tudo, um trabalhador disposto a servir.
Sua principal preparação não está apenas em aprender determinados movimentos ou técnicas.
Ela envolve também o esforço de cultivar equilíbrio, disciplina, humildade, responsabilidade e disposição para o bem.
Um passista não é alguém superior a quem recebe o passe.
Ambos são espíritos em processo de aprendizado.
A diferença está na função desempenhada naquele momento.
O passista oferece seu tempo e sua disposição para auxiliar, enquanto o beneficiado recebe aquele momento de acolhimento e auxílio.
Essa compreensão ajuda a evitar a personalização excessiva do passe.
O benefício não depende de “poderes” individuais do passista.
A proposta é de trabalho conjunto, envolvendo o esforço humano e o auxílio espiritual.
O passe não é um ritual
Essa distinção é especialmente importante.
O passe espírita não depende de velas, incensos, objetos sagrados, roupas especiais ou fórmulas ritualísticas.
Também não existe necessidade de criar uma atmosfera de mistério.
Em uma casa espírita de orientação kardecista, o passe pode ser realizado de maneira simples, serena e respeitosa.
O essencial é a disposição para o bem.
Por isso, o ambiente deve favorecer o recolhimento e a tranquilidade, mas sem transformar o momento em espetáculo ou ritual.
A simplicidade faz parte da proposta.
O passe como recurso de auxílio espiritual
O passe pode ser procurado por pessoas que estejam enfrentando momentos de cansaço, preocupação, tristeza, dificuldades emocionais ou necessidade de fortalecimento.
Ele pode proporcionar um momento de serenidade e acolhimento.
Entretanto, é importante evitar a ideia de que o passe seja uma solução automática para todos os problemas.
A pessoa continua responsável pelas próprias escolhas e pelo cuidado com sua vida.
Se existe uma dificuldade de saúde, por exemplo, o tratamento médico continua sendo necessário.
Se existe sofrimento psicológico, o acompanhamento de um profissional qualificado pode ser fundamental.
O passe pode caminhar ao lado desses cuidados, como recurso de natureza espiritual, mas não deve substituí-los.
Passe não significa cura automática
Essa é uma das principais ideias que precisam ser esclarecidas.
Receber um passe não significa necessariamente que uma doença será curada ou que determinado problema desaparecerá imediatamente.
A existência humana envolve diversos fatores.
Doenças físicas possuem causas e tratamentos que precisam ser avaliados pela medicina.
Questões emocionais também podem exigir acompanhamento psicológico ou psiquiátrico.
O passe pode contribuir para o equilíbrio e o fortalecimento espiritual, mas não deve ser apresentado como substituto da ciência ou como promessa de cura.
A fé espírita não precisa entrar em conflito com os cuidados de saúde.
Pelo contrário: responsabilidade também significa procurar o tratamento adequado quando necessário.
Como se preparar para receber um passe?
Não existe necessidade de preparação complicada.
Algumas atitudes simples podem ajudar a aproveitar melhor esse momento:
- procurar manter a calma;
- evitar conversas e distrações desnecessárias;
- fazer uma prece sincera;
- procurar elevar os pensamentos;
- manter uma atitude receptiva;
- confiar no auxílio espiritual;
- refletir sobre aquilo que deseja transformar em si mesmo.
Não é necessário esperar sentir algo extraordinário.
O objetivo principal não é experimentar uma sensação diferente, mas aproveitar aquele momento de recolhimento e auxílio.
O passe e a reforma íntima
Assim como acontece com a mediunidade, o passe não deve ser separado da reforma íntima.
Podemos receber auxílio espiritual inúmeras vezes, mas se continuarmos alimentando conscientemente os mesmos comportamentos prejudiciais, pouco estaremos fazendo para transformar nossa própria vida.
O passe pode fortalecer.
Mas precisamos caminhar.
Pode proporcionar serenidade.
Mas precisamos aprender a lidar melhor com nossas emoções.
Pode contribuir para o equilíbrio.
Mas precisamos também modificar pensamentos e atitudes.
Por isso, o passe pode ser compreendido como um auxílio no caminho, e não como um substituto para o esforço pessoal.
A prece e o passe
A prece possui uma relação importante com o momento do passe.
Por meio dela, elevamos nossos pensamentos e buscamos sintonia com Deus e com os bons espíritos.
Uma oração simples pode ajudar a criar uma disposição interior mais tranquila.
Não precisamos utilizar palavras elaboradas.
Podemos simplesmente agradecer, pedir força, buscar equilíbrio e desejar o bem.
A prece também nos lembra de que o auxílio espiritual não está limitado ao momento do passe.
Podemos buscar essa conexão diariamente.
Em casa, no trabalho, diante de uma dificuldade ou antes de tomar uma decisão importante, a oração pode ser um recurso de fortalecimento.
O que podemos levar para a vida depois do passe?
Talvez essa seja a parte mais importante.
O verdadeiro benefício de um momento de auxílio espiritual não está apenas naquilo que sentimos durante alguns minutos.
Está também naquilo que fazemos depois.
Se recebemos um momento de serenidade, podemos procurar levar mais serenidade para nossas relações.
Se encontramos consolo, podemos oferecer consolo a alguém.
Se pedimos força, podemos utilizar essa força para enfrentar nossas responsabilidades.
Se buscamos paz, podemos começar a construir essa paz por meio de nossas atitudes.
O passe pode ser um momento de renovação.
Mas a transformação acontece no cotidiano.
Conclusão
O passe espírita é um recurso de auxílio espiritual fundamentado, dentro da visão espírita, na transmissão e combinação de fluidos, na participação dos espíritos e na disposição íntima daquele que recebe.
Ele não é um ritual mágico, não depende de objetos especiais e não deve ser utilizado para alimentar superstição.
O passista não possui poderes extraordinários. É um trabalhador que procura servir com humildade, disciplina e disposição para o bem.
Da mesma maneira, quem recebe o passe não precisa esperar sensações extraordinárias. Cada pessoa pode vivenciar esse momento de maneira diferente.
O mais importante é compreender que o passe pode auxiliar, fortalecer e proporcionar serenidade, mas não substitui o esforço pessoal, a reforma íntima nem os cuidados médicos e psicológicos necessários.
A verdadeira finalidade do passe não está apenas no momento em que recebemos o auxílio, mas naquilo que fazemos com a força e o equilíbrio que buscamos encontrar.
Receber o passe é acolher um momento de auxílio. Transformar a própria vida é continuar caminhando.
E talvez essa seja uma das maiores belezas da proposta espírita: o auxílio espiritual não nos convida à passividade, mas nos fortalece para que possamos seguir adiante, com mais consciência, fé, responsabilidade e disposição para o bem.


Nenhuma resposta ainda